Lá ao fundo, bem lá ao fundo, o caminho estava sempre encerrado. O chão era de um cimento agastado, cinzento cor de céu com chuva. A terra que o rodeava estava sempre revolta e as ervas daninhas teimavam em rebentar bem junto dos buraquinhos que tinham umas flores plantadas. Todo o teu jardim era mágico. A caixa do correio saía por de dentro dos arbustos farfalhudos e tentar lá colocar uma carta era sempre um truque de malabarista!
A fachada da tua casa lembra-me sempre um conto de fadas. Havia antigamente um maracujá que ladeava a entrada e que dava uns frutos agros, azedos que faziam doer a língua. Roubava-te uma colher lá de dentro da cozinha e o avô, com a sua paciência, ensinava-me a comer aquilo. Fazíamos caras feias e depois riamo-nos de nós próprios. Naqueles dias estava longe de imaginar que estaria a viver a melhor altura da minha vida.
Haviam frutas e flores.
Haviam cheiros e sabores.
Haviam galinhas, pombos e coelhos.
Haviam grilos e cigarras.
Eu sentava-me nas tábuas deitadas ao comprido e "fazia-de-conta".
Levantava-me, cantava e dançava.
Eu era feliz e não fazia a mínima ideia.

Hoje o teu jardim continua lá.
O caminho continua fechado como sempre. O maracujá há muito que morreu. As ervas daninhas sempre teimosas em crescer onde não devem.
As flores e as frutas foram embora.
Cheira a terra.
Desapareceram os bichos.

As tuas janelas estão fechadas e já não vem um aroma a estufado da cozinha.


Hoje já ninguém mora ali.

Sinto a vossa falta.
Ninguém me explicou que ver-vos ir embora era tão doloroso.

Vejo-vos agora de mãos dadas num jardim perfumado de jasmim. A sorrir! E que saudades desses sorrisos!

Mandem-me luz. Assim eu sei que estão sempre por aí.

Um beijo.

Ao Avô Toino e à Avó Dete. São para eles as minhas primeiras palavras.

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